Entre os muitos seres fabulosos que povoaram os bestiários medievais, poucos despertam tanto espanto – e risos – quanto o Bonnacon. Descrito como uma criatura semelhante a um touro, mas com uma defesa tão inusitada quanto desconcertante, o Bonnacon é um exemplo fascinante de como a mitologia, o humor e a moralidade se entrelaçavam nos textos da Idade Média. Ainda que sua existência nunca tenha sido comprovada, a figura do Bonnacon revela muito sobre a visão de mundo medieval, a construção de bestiários e o imaginário popular da época.
O que é o Bonnacon?
O Bonnacon (também chamado Bonasus ou Bonacon) é uma criatura mítica mencionada em diversos bestiários medievais, como o “Physiologus” e suas derivações latinas e iluminadas. Supostamente nativo da Ásia ou da Trácia, ele era descrito como tendo o corpo de um touro, uma juba como a de um cavalo e chifres curvados para dentro – o que, ironicamente, o tornava incapaz de usar a cabeça como arma defensiva.
Contudo, o que realmente chamava atenção no Bonnacon era sua maneira nada convencional de se proteger: ao ser ameaçado, ele lançava um jato de excremento quente e corrosivo por até 10 metros de distância, queimando tudo em seu caminho, inclusive os caçadores desavisados.
Essa descrição, evidentemente grotesca e cômica, fez do Bonnacon uma das criaturas mais memoráveis dos bestiários.
Fontes e descrições antigas
A primeira menção conhecida ao Bonnacon aparece em Plínio, o Velho, no século I d.C., em sua obra História Natural. Plínio narra a existência de um animal asiático com essa habilidade peculiar de defesa. No entanto, é na literatura medieval, especialmente entre os séculos XII e XIV, que o Bonnacon ganha sua forma definitiva e se consolida como um símbolo de bestiários ilustrados.
Nesses manuscritos, os monges copistas retratavam o Bonnacon com riqueza de detalhes gráficos, muitas vezes adicionando humor nas imagens: caçadores fugindo em desespero, rostos contorcidos e cenários onde o excremento toma quase a página inteira.
O Bestiário de Aberdeen (século XII), por exemplo, traz uma das imagens mais conhecidas do Bonnacon, onde três caçadores fogem do jato escatológico da besta. O texto latino enfatiza tanto a função moralizante quanto o aspecto divertido da criatura.
Simbolismo e função nos bestiários
É importante entender que os bestiários não eram apenas coleções de animais reais e imaginários. Eles serviam como instrumentos de ensino moral, embutindo lições cristãs em suas descrições. Nesse contexto, o Bonnacon também ganhou interpretações alegóricas.
Alguns estudiosos propuseram que o Bonnacon representaria o pecador arrogante, que em vez de combater o mal com virtude, recorre a meios indignos, como a vergonha ou a escatologia. Outros sugerem que o animal simbolizava os falsos cristãos, que pareciam piedosos por fora, mas cujo interior era impuro – daí o uso da “arma” fecal como metáfora do coração corrompido.
Entretanto, muitos também veem o Bonnacon simplesmente como uma licença cômica, um toque de leveza em um mundo permeado por rigidez moral e medo do inferno. Sua presença nos manuscritos pode ter servido para distrair, divertir e entreter, uma espécie de alívio cômico em meio a tantas criaturas aterrorizantes como dragões, basiliscos ou mantícoras.
Relações com animais reais
Algumas hipóteses foram levantadas quanto à possível origem real do Bonnacon. Teria ele sido inspirado em um animal verdadeiro?
O búfalo-asiático, com seus chifres recurvados, pode ter sido uma das influências visuais. Por outro lado, o comportamento defensivo do Bonnacon não encontra paralelo direto em nenhum mamífero conhecido. No entanto, algumas espécies de besouros, como o bombardeiro, de fato expeliam jatos químicos para afastar predadores – embora em escala muito menor e sem efeitos corrosivos tão exagerados.
Essa discrepância sugere que o Bonnacon é provavelmente um compósito imaginativo, misturando elementos reais com exageros típicos da tradição oral e da iconografia medieval.
Representações artísticas e variações
Ao longo da Idade Média, o Bonnacon foi representado em manuscritos iluminados por toda a Europa, desde Inglaterra até a França e a Alemanha. As imagens oscilavam entre o grotesco e o cômico, sempre destacando a singular defesa do animal.
Além disso, variações do Bonnacon apareceram com nomes diferentes, como o Bonacon ou Bonachon, mas sempre com as mesmas características principais: corpo bovino, chifres inúteis e excrementos incendiários.
A presença do Bonnacon em manuscritos como o Bestiário de Rochester ou o Bestiário Harley reforça sua popularidade na iconografia cristã e secular. Ele também é um exemplo claro de como os copistas e artistas da época tinham liberdade criativa para representar o mundo natural – ou sobrenatural.
O Bonnacon na cultura contemporânea
Nos tempos modernos, o Bonnacon caiu no esquecimento popular, mas ainda sobrevive em nichos de interesse histórico, como a heráldica, a cultura nerd e os jogos de RPG. Ele já apareceu em versões humorísticas em livros como The Book of Imaginary Beings de Jorge Luis Borges, e até em alguns jogos digitais e enciclopédias de monstros.
Na era digital, o Bonnacon se tornou uma espécie de mascote dos bestiários medievais, sendo frequentemente citado em artigos de curiosidades históricas e postagens sobre os animais mais bizarros da Idade Média.
Sua imagem continua a causar riso, mas também a intrigar. Como uma sociedade tão voltada ao sagrado permitia a presença de um ser que escapava à solenidade para fazer rir?
Escatologia e humanidade
Ao estudar o Bonnacon, somos lembrados de que até nas eras mais sombrias da humanidade havia espaço para o riso e para o absurdo. Ele nos mostra que a escatologia – literal e figurativa – não era apenas tabu, mas também recurso pedagógico e satírico.
Além disso, o Bonnacon representa um convite à humildade. Afinal, mesmo as criaturas mais temidas podem ser ridicularizadas. E talvez seja essa a lição mais duradoura do Bonnacon: a força nem sempre vem dos músculos ou das garras, mas da capacidade de surpreender, de resistir ao convencional e de transformar até o grotesco em símbolo de resistência.
